
Eu me lembro da primeira vez que li sobre Jim Rogers. Enquanto a maioria dos grandes investidores era descrita em escritórios cheios de telas, ele estava em uma motocicleta, cruzando continentes, observando economias com os próprios olhos. Não era apenas um investidor. Era um explorador.
E talvez seja justamente isso que o tornou tão diferente: Rogers não olhava apenas gráficos, balanços e relatórios. Ele olhava pessoas, ruas, estradas, mercados de rua, fábricas no meio do nada. Onde outros viam países esquecidos, ele enxergava futuros centros de crescimento.
Hoje quero compartilhar essa história, não como biografia fria, mas como um convite à reflexão: o que nós, traders e investidores, podemos aprender com alguém que apostou em mercados emergentes antes de todos e transformou esse olhar em fortuna e legado.
Da sala de aula ao mercado
Jim Rogers nasceu em 1942, no Alabama, sul dos Estados Unidos. Filho de uma família simples, desde cedo mostrou curiosidade pelo funcionamento do mundo.
Estudou História na Yale e depois foi para Oxford, onde fez mestrado em Filosofia, Política e Economia. Essa formação ampla moldou sua forma de pensar: ele não era apenas um “homem de números”, mas alguém que entendia o peso de ciclos históricos, decisões políticas e contextos sociais.
Nos anos 1970, conheceu George Soros. Juntos criaram o Quantum Fund, um dos primeiros hedge funds globais. Enquanto Soros ficava mais voltado às estratégias de execução, Rogers era o cérebro macro: o olhar de longo prazo, a percepção de tendências.
Entre 1970 e 1980, o fundo teve ganhos de mais de 4.000%, enquanto o S&P 500 subiu apenas 47% no mesmo período. Um feito que marcou época.
O olhar fora da bolha
Rogers nunca acreditou em investir apenas nos Estados Unidos. Enquanto Wall Street olhava para dentro, ele olhava para fora.
Foi um dos primeiros a apostar na ascensão do Japão nos anos 1970, na força das commodities nos anos 1990 e, principalmente, na China e outros mercados emergentes nos anos 2000.
Mas sua metodologia era incomum: em vez de confiar apenas em relatórios de analistas, ele viajava. Literalmente.
Fez duas grandes expedições globais: a primeira de moto, entre 1990 e 1992, cruzando 100 mil quilômetros em mais de 50 países; a segunda, entre 1999 e 2002, em um carro customizado que percorreu 116 países.
Essas viagens não eram turismo. Eram pesquisa. Rogers queria sentir na pele o que os números ainda não mostravam.
“Se você quer entender uma economia, não leia apenas relatórios. Vá às ruas, veja como as pessoas vivem, o que compram, como produzem.”
A aposta na China
Talvez o ponto mais marcante da carreira de Jim Rogers tenha sido sua convicção na China.
Ainda nos anos 1980, quando o país era visto apenas como um gigante adormecido e comunista, Rogers já afirmava que a China seria a grande potência do século XXI.
Em 2007, mudou-se para Singapura com sua família, para estar mais próximo da Ásia. Colocou suas filhas para aprender mandarim e construiu grande parte de seus investimentos em torno da tese chinesa.
Enquanto o mundo ainda desconfiava, ele já tinha certeza: a força de trabalho, a abertura gradual ao mercado e a disciplina cultural fariam da China a locomotiva global.
O investidor das commodities
Outro grande acerto de Rogers foi sua defesa das commodities como classe de ativos essencial.
Ele acreditava que ciclos de oferta e demanda, somados ao crescimento populacional, tornariam inevitável a valorização de matérias-primas. Tanto que criou o Rogers International Commodities Index (RICI), referência até hoje.
Quando todo o mercado estava obcecado por tecnologia no fim dos anos 1990, ele falava de petróleo, cobre, milho, soja.
E acertou novamente. Nos anos 2000, vimos um superciclo das commodities que transformou economias como a brasileira.
O estilo contrarian
O que realmente diferencia Jim Rogers é o estilo contrarian, de ir contra o consenso.
Quando todos estavam eufóricos com as pontocom, ele alertava para a bolha. Quando poucos olhavam para a Ásia, ele enxergava oportunidade.
Ele não tinha medo de estar sozinho em suas convicções. E esse é um ponto crucial para qualquer trader ou investidor: se você precisa sempre da validação da maioria, dificilmente estará no lugar certo nas grandes viradas.
O que o trader pode aprender com Jim Rogers
1. Olhar para além da tela O mercado não acontece só nos gráficos. A economia real pulsa nas ruas. Rogers ensina que é preciso sair da bolha e observar o mundo.
2. Pensar em ciclos longos Mesmo sendo trader de curto prazo, é essencial entender o pano de fundo macro. Estar a favor de um grande ciclo aumenta a probabilidade de acerto.
3. Desconfiar do consenso Se todo mundo já está comprado, talvez a oportunidade já tenha passado. O contrarian não é do contra por ser do contra, mas por buscar valor onde os outros ainda não veem.
4. Valorizar commodities Para nós, brasileiros, isso é ainda mais relevante. Vivemos em um país exportador de matérias-primas. Entender o ciclo das commodities é entender parte do ciclo do Ibovespa.
5. Manter simplicidade de método Apesar de sua visão global, Rogers sempre foi simples: identificar grandes tendências, esperar pacientemente e investir pesado quando via convicção.
A vulnerabilidade que poucos lembram
Apesar de todo o sucesso, Rogers também errou. Teve teses que demoraram anos para se concretizar, sofreu críticas por ser “exagerado” em algumas previsões e, muitas vezes, ficou isolado em suas convicções.
Mas esse é o ponto: errar faz parte. O que o diferencia é que ele não se abalava com críticas. Mantinha-se fiel ao processo de observação, convicção e paciência.
“Eu erro como qualquer um, mas quando acerto, acerto grande.”
Conclusão: o trader viajante
Jim Rogers provou que consistência não vem só de técnica ou de relatórios sofisticados. Vem de curiosidade, visão ampla e coragem de agir diferente.
Ele é o exemplo vivo de que o mercado não é só números, mas também histórias, culturas e sociedades em transformação.
Se você quer inspiração para ser mais do que um operador de tela, olhe para Rogers.
Ele mostra que, no fundo, o trader que observa o mundo além do gráfico é o que tem mais chances de estar no lugar certo, na hora certa.
André Moraes
Analista de Investimentos
Chairman do Trade Ao Vivo e da BFR Investimentos



