Linda Bradford Raschke – A Trader Que Desafiou Wall Street em um Mercado de Homens

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A consistência tem voz feminina

Quando se fala em grandes nomes da história do trading, os mesmos nomes se repetem: Livermore, Soros, Druckmiller, Jones, Minervini. Mas há um nome que, mesmo em um ambiente dominado por homens, construiu uma carreira de mais de quatro décadas com resultados reais e verificáveis: Linda Bradford Raschke.

Enquanto muitos buscavam fama, ela buscava longevidade. Enquanto alguns quebravam tentando provar genialidade, ela se manteve viva e rentável, em todos os ciclos de mercado.

Trader profissional, gestora, autora, palestrante e uma das raras pessoas que podem dizer que viveram exclusivamente do mercado por 40 anos, Linda é o retrato da disciplina aplicada em sua forma mais pura.

Hoje quero te contar a história dela, não como uma biografia fria, mas como um espelho daquilo que o trader maduro precisa ser: técnico, disciplinado e, acima de tudo, lúcido.

O início: uma mulher, um pregão e o som dos telefones

Linda começou a carreira nos anos 1970, em um ambiente que hoje seria inimaginável para muitos: o pregão físico de Chicago, lotado de homens de terno gritando ordens e empurrando uns aos outros.

Filha de um corretor, ela se apaixonou cedo pelo ritmo do mercado. Mas entrar naquele mundo era quase uma afronta. Em uma época em que poucas mulheres sequer trabalhavam em bancos de investimento, Linda decidiu competir com os melhores — no mesmo ringue, com as mesmas regras, sem pedir concessões.

Foi aceita na Pacific Coast Stock Exchange, tornando-se uma das primeiras mulheres a negociar no piso da bolsa. Ali aprendeu o valor do tempo, da observação e da gestão de risco.

Mais do que técnica, o pregão ensinou a ela algo que muitos traders modernos esquecem:

“Sobreviver vem antes de vencer.”

O aprendizado na dor

Como todo trader, Linda começou errando. Teve fases de ganho rápido e perdas dolorosas. Mas, em vez de desistir, tratou cada erro como dado estatístico.

Nos anos 1980, quando muitos quebraram com a volatilidade de commodities, ela estava viva. Durante o crash de 1987, quando o mercado americano perdeu 22% em um único dia, Linda sobreviveu.

Seu segredo? Gestão de risco e adaptabilidade.

Ela dizia:

“O mercado vai me bater muitas vezes. Mas eu só preciso de poucas boas sequências para compensar tudo.”

Essa é a essência da consistência: perder pequeno, ganhar grande, e continuar viva tempo suficiente para ver o método funcionar.

A construção do método

Linda nunca foi adepta de sistemas automáticos. Sua abordagem é baseada em price action, ciclos e padrões de volatilidade.

Ela estuda a repetição dos movimentos, o que chama de “ritmo interno” do mercado. Seu foco está em entender quem está no controle: compradores, vendedores ou o acaso.

Entre os padrões que ficou famosa por operar estão:

  • Turtle Soup – reversões curtas em rompimentos falsos.
  • Anti-patterns – operações contra o consenso momentâneo.
  • Cycles trading – leitura de fases curtas de expansão e contração.

Mas o método de Linda não está nos setups, está no processo. Ela sempre reforçou:

“Meu sistema é simples. A disciplina é o que o torna poderoso.”

A filosofia de risco

Linda trata o risco como parte natural do trabalho. Nunca o romantizou, nem o temeu.

Sua gestão é metódica:

  • Cada operação começa com o stop técnico definido.
  • O tamanho da posição é calibrado de acordo com o contexto.
  • A perda máxima do dia é sagrada.

Ela não busca o trade perfeito. Busca a execução perfeita.

E aqui está uma das frases mais emblemáticas dela:

“Você nunca vai eliminar o risco. O segredo é decidir, antes de clicar, o quanto dele você quer carregar.”

Essa simplicidade brutal é o que torna sua filosofia tão eficiente.

O livro “Trading Sardines”: humor, humildade e humanidade

Em 2019, Linda publicou sua autobiografia: Trading Sardines – Lessons in the Markets from a Lifelong Trader. O título é uma piada com uma história do mercado:

Um especulador compra sardinhas enlatadas a preços cada vez maiores até que alguém abre uma lata e descobre que as sardinhas estão estragadas. “Essas sardinhas não são para comer”, diz o vendedor, “são para negociar.”

O livro é uma coleção de memórias, histórias engraçadas e lições duras. Mais do que técnica, é sobre vida real de trader,  as frustrações, o tédio, os dias ruins e a beleza de seguir no jogo.

Linda mostra que consistência não é glamour. É resiliência com método.

O que Linda ensina sobre longevidade operacional

Em um mercado que glorifica o ganho rápido, ela é o retrato da sustentabilidade.

1. Disciplina como hábito, não como virtude

Linda não depende da motivação. Ela tem rotina. E rotina é o que protege o trader nos dias em que a mente quer desistir.

2. Gestão de risco como religião

Cada operação tem risco conhecido antes do clique. Nada é “intuitivo”. Ela opera com convicção, mas dentro de um limite que garante que um erro nunca destrua o capital.

3. Simplicidade técnica

Os melhores trades vêm dos setups mais simples. A diferença está na execução impecável.

4. Autoconhecimento constante

Ela revisa não apenas resultados, mas comportamento. Quer entender como ela se sente em cada fase, porque sabe que emoção é variável técnica.

Um mercado de homens e uma mulher que não pediu licença

Durante décadas, Linda foi uma exceção. Participou de mesas dominadas por homens, debates técnicos, conferências e competições. Nunca buscou holofote por ser mulher, buscou respeito por ser trader.

E conquistou.

Hoje, muitos dos profissionais que operam fundos e prop firms a citam como referência. Não pela representatividade, mas pela consistência.

Ela mostrou que o mercado não é sobre gênero, idade ou aparência. É sobre repetição, preparo e cabeça fria.

O legado de quatro décadas

Quarenta anos é tempo demais para qualquer profissão e tempo quase impossível para o mercado. A maioria dos traders não sobrevive a cinco anos.

Linda atravessou crises, bolhas, mudanças tecnológicas e transformações estruturais — e ainda assim, continua operando e ensinando.

Ela é a prova de que consistência não é performance de um ciclo. É sobrevivência em todos eles.

O que aprendi com Linda

Estudando sua trajetória, percebi três pilares que todo trader precisa absorver:

  1. O tempo é o verdadeiro filtro de talento. Qualquer um pode ter sorte por um ano. Ninguém finge consistência por quarenta.
  2. O risco é inevitável, mas o descontrole é opcional. Linda mostra que aceitar o risco é o primeiro passo para domá-lo.
  3. A simplicidade é a fronteira final da maestria. Depois de décadas operando, ela chegou à conclusão de que menos é mais — desde que seja feito com perfeição.

Conclusão: a lição de uma vida inteira

Linda Bradford Raschke desafiou Wall Street em uma época em que mulheres eram invisíveis no pregão. E venceu, não com gritos, mas com consistência.

Sua história é um lembrete de que o mercado não premia o mais rápido, o mais ousado ou o mais midiático. Premia quem trabalha no silêncio e aparece no longo prazo.

Ela nos ensina que gestão de risco não é técnica: é filosofia. Que disciplina não é dom: é rotina. E que sucesso no mercado não é explosão: é permanência.

Trader maduro não busca glória instantânea. Busca o privilégio de continuar operando.

E é por isso que, quando me perguntam o que admiro em Linda Bradford Raschke, respondo sem pensar: ela nunca precisou provar que é boa, apenas continuou sendo.

Nos vemos no mercado, com método, humildade e o compromisso de estar aqui por muito, muito tempo.

André Moraes

Analista de Investimentos

Chairman do Trade Ao Vivo e da BFR Investimentos

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