
O que é um short squeeze?
Imagina que você tem uma ação sendo muito vendida a descoberto. De repente, uma reviravolta faz quem está apostando na queda ter que correr para recomprar essas ações. E é aí que o short squeeze acontece.
Foi exatamente isso que vimos no caso da GameStop, em 2021.
GameStop: o varejo contra Wall Street
Investidores individuais, reunidos no fórum WallStreetBets, dentro do Reddit, perceberam uma oportunidade: grandes Fundos de Investimentos estavam massivamente vendidos em GameStop — apostando que a empresa iria quebrar. Mas o que parecia uma ação fadada ao fracasso virou símbolo de uma revolta financeira.
Aos poucos, o movimento de compra foi ganhando força. Investidores do varejo, que normalmente não têm tanto poder de movimentar o mercado, se uniram em uma espécie de contra-ataque. Começaram a comprar ações da GameStop em massa. E essa demanda repentina disparou o preço.
Os fundos, vendo o preço subir de forma acelerada, entraram em pânico. Para limitar os prejuízos, foram obrigados a recomprar as ações vendidas anteriormente. Isso gerou um efeito bola de neve: quanto mais compravam, mais o preço subia — e quanto mais o preço subia, mais eles precisavam comprar. Um clássico short squeeze.
Em questão de semanas, a ação que estava em torno de 20 dólares saltou para incríveis 485 dólares.
A virada: Robinhood impõe limites
No auge da euforia, a corretora Robinhood — uma das mais utilizadas pelo varejo norte-americano — restringiu as compras de GameStop. A partir daquele momento, só era permitido vender. Isso fez o preço cair rapidamente. Também em poucas semanas, o papel despencou de 485 dólares para cerca de 40 dólares.
Muitos investidores saíram no prejuízo.
Lições que ficaram
A história mostrou que a união de pequenos investidores pode, sim, abalar gigantes. Mas também deixou lições valiosas sobre volatilidade, estrutura de mercado e a importância de entender o jogo — tanto na compra quanto na venda.
E talvez a maior lição de toda essa história seja que, no mercado, emoção sem estratégia pode custar caro. O short squeeze da GameStop foi um grito de liberdade do varejo, mas também um lembrete de que o mercado tem regras, limites.
Neste caso, houve uma discussão muito grande sobre manipulação de mercado. Será que esse movimento coordenado foi legítimo ou se transformou em algo ilícito? Quem foram os privilegiados? Quem saiu prejudicado?
Inclusive, algo semelhante chegou a ser tentado no Brasil. Um exemplo foi o caso da IRB (Instituto de Resseguros do Brasil), listada na bolsa com o código IRBR3. A empresa vinha em forte tendência de queda, e houve uma tentativa de coordenar um movimento de alta. O Ministério Público de São Paulo, inclusive, instaurou um procedimento para investigar possível crime financeiro à época.
Por isso, é fundamental separar o short squeeze legítimo — aquele que nasce naturalmente da pressão compradora — de movimentos forçados, com indícios de manipulação. São eventos completamente diferentes e precisam ser tratados de forma diferente.
A partir de agora, este artigo focará apenas no evento legítimo — que acontece por uma mudança real de oferta e demanda, algo que aparece de tempos em tempos no mercado.
Nota do autor: Para quem se interessou pela história da GameStop, recomendo a série GameStop Contra Wall Street, disponível na Netflix. Vale muito a pena para quem gosta de mercado financeiro.
E na Bolsa Brasileira, isso pode acontecer?
Com os gatilhos certos, sim. E para entender como, precisamos olhar para o cenário recente da nossa Bolsa.
A reconstrução do contexto: Brasil desde 2021
A partir de junho de 2021, passamos a viver o que eu chamo de “A Era da Inflação” — no Brasil e no mundo.
A Selic voltou a subir. O dinheiro ficou mais caro. O fluxo de investimentos correu para a Bolsa americana. Empresas que dependem de capital para financiar crescimento foram duramente atingidas.
Varejo, shoppings, educação, tecnologia… todos caíram. Quedas de 60%, 80%, 90% — ou até mais. Um dos maiores símbolos disso foi Magazine Luiza: valorizou 94.000% entre 2016 e 2021, mas desde o topo já perdeu mais de 95% do seu valor.
Esse não foi um caso isolado. Há pelo menos 20 empresas com histórias parecidas.
O risco está nos números
Durante essa longa queda, muitos investidores abriram posições vendidas. Hoje, essas operações representam uma fatia relevante do free float de diversas empresas.
(Em anexo, a planilha mostrando esses números. Importante dizer que a planilha foi construída pelo Rike Rodrigues, que atualiza todos os dias esses dados e divulga na rede social X. Para quem deseja acompanhar, é só seguir o @Hsrodrigues2.)
Alguns números impressionam. Movida, por exemplo, tem boa parte do seu free float vendido. E ela não é a única.
Agora, pare e pense: o que acontece se um gatilho de alta for disparado no mercado?
Exemplos concretos e o efeito cascata
Do fundo de janeiro até agora:
- Magazine Luiza subiu 90%
- Casas Bahia subiu mais de 250%
E ainda há muita gente short nesses papéis.
A maioria dos ativos sequer começou a subir. Mas se o mercado ganha força — por um corte de juros à frente, uma melhora no cenário fiscal ou qualquer evento de impacto — os vendidos podem ser pegos no contrapé.
E aí começa o ciclo:
O mercado sobe → shorts precisam zerar → recompra pressiona preços → mais alta → mais shorts sendo encerrados → mais alta.
Vamos a um exemplo mais concreto
Movida negocia, em média, pouco menos de 10 milhões de ações por dia.
Suponha que 50% desse volume seja usado exclusivamente para zerar posições vendidas. Sabendo que há 40 milhões de ações shorteadas, seriam necessários oito pregões para liquidar tudo.
Oito pregões com fluxo comprador representando metade de toda a liquidez do papel.
Agora te pergunto: Para quanto você acha que Movida iria? Quanto ela poderia subir em oito pregões puxados por recompra forçada?
O que o investidor precisa fazer?
Não estou dizendo que o short squeeze vai acontecer. Estou dizendo que os ingredientes estão na mesa.
O investidor atento enxerga essas possibilidades antes que saiam no jornal. E mais do que tentar prever, o importante é estar posicionado estrategicamente. Com leitura de fluxo, visão de contexto e disposição para agir.
Porque quando um short squeeze legítimo acontece… Ele não espera ninguém. Nem quem deseja comprar, muito menos os vendidos.
Se você gostou deste conteúdo, curta, comente e compartilhe. Vamos levar mais conhecimento estratégico sobre mercado financeiro para frente.
E se quiser continuar essa conversa, os comentários estão abertos. Nos vemos no próximo insight!
— André Moraes Analista de Investimentos | Chairman do Trade ao Vivo & BFR Investimentos



